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Não é desertificação é decisão política

Falemos do Alentejo. Mas sem romantismos.

O Alentejo não está vazio por acaso. Não está envelhecido por destino. E não está parado porque “é assim mesmo”. O que acontece no Alentejo tem uma causa clara: decisão política.

Durante décadas, Portugal escolheu crescer para o litoral e esquecer o interior. Não foi inevitável foi uma opção. Investiu-se onde já havia infraestruturas, empresas e população, enquanto o resto do país ficou à margem.

E o resultado está à vista.

Os jovens saem porque não têm escolha. Não é falta de ligação à terra é falta de oportunidades. Não é falta de vontade é falta de futuro. E quando uma geração inteira é empurrada para fora, não estamos perante um problema demográfico. Estamos perante um falhanço político.

O mais grave é que nos habituámos a isto.

Habituámo-nos a ouvir que o interior está a perder população, como se fosse um fenómeno natural. Habituámo-nos à ideia de que para “vencer na vida” é preciso sair. Habituámo-nos a um país desigual e isso é, talvez, o maior sinal de conformismo coletivo.

Mas o Alentejo não é um território sem solução. Pelo contrário.

Num momento em que se fala de energia, de água, de sustentabilidade e de território, o Alentejo devia estar no centro da estratégia nacional. Tem espaço, tem recursos e tem conhecimento muito dele produzido na Universidade de Évora. O problema nunca foi falta de potencial. Foi falta de prioridade.

E é aqui que a conversa tem de mudar.

Não basta falar em coesão territorial em discursos políticos. Não basta anunciar medidas avulsas. Ou há uma estratégia séria para o interior com investimento, emprego qualificado e serviços públicos ou tudo o resto é apenas gestão do declínio.

O país não pode continuar a aceitar que há territórios de primeira e de segunda.

Porque quando o Alentejo fica para trás, não é só o Alentejo que perde.

É Portugal inteiro.

Ana Beatriz Calado

Presidente da Associação Académica da Universidade de Évora

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