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Desenhar paredes que ninguém habita, por uma estudante de arquitetura

Quando entrei para o curso de Arquitetura, sonhava com linhas perfeitas, cidades harmónicas, espaços onde as pessoas se sentissem bem. Mas rapidamente percebi que a arquitetura não é apenas estética: é política, é ética, é social.

Na última semana, enquanto pensava em habitação, recebi uma notificação no telemóvel: mais um despejo em Lisboa. Um bairro informal demolido pela manhã, famílias desalojadas pela tarde, silêncio pela noite.

As imagens mostravam barracas erguidas com placas de zinco e madeiras irregulares, que para alguns são “poisos ilegais”, mas para outros são casas. ABRIGO e ÚLTIMO RECURSO. Nenhuma linha reta, nenhuma norma da legislação habitacional, mas ali dentro havia vida e dignidade possível de ter um teto.

Custa ver como o espaço é tratado em teoria e como é vivido na realidade. Na universidade, estudamos a “habitação social”. Mas nas cidades reais, muitas vezes, essa habitação não é garantida. E o que se constrói em troca? Muros, vedações, esquecimento.

Fico a pensar que projetamos demasiado para quem já tem tudo resolvido e quase nada para quem só precisa de um chão firme e um teto que não caia. Nenhum dos meus professores nos pediu, até hoje, para desenhar uma habitação de emergência. Nenhum projeto nos desafiou a pensar numa cidade que integre barracas, em vez de as apagar.

Entendo que há leis. Que o urbanismo tem regras. Que o espaço público deve ser organizado. Mas não consigo evitar esta pergunta inquestionável: para quem estamos a desenhar as cidades? Se os mais pobres são sempre expulsos primeiro para as margens, depois para fora do mapa; que cidade estamos, afinal, a construir?

Como estudante de arquitetura, sinto-me dividida. Entre o fascínio do traço e o desconforto da realidade. Entre o papel onde tudo parece possível e os terrenos onde tudo é negado.

Talvez o nosso maior projeto, um dia, seja este: construir uma cidade onde ninguém precise construir barracas para sobreviver. Uma cidade que acolha antes de derrubar. Onde os despejos não sejam rotina, e a arquitetura não seja privilégio, mas direito.

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