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«Évora 2027 não pode ser só um conjunto de eventos», defende José Roquette

Empresário destacou o povoado megalítico dos Perdigões, o conceito de «devagar» e o papel da cultura na mobilização das novas gerações

O empresário José Roquette defendeu, em Évora, que a Capital Europeia da Cultura 2027 deve ir além da programação cultural e assumir uma dimensão de valorização territorial, histórica e civilizacional.

A intervenção decorreu no encontro «Identidade Cultural, Coesão e Valorização do Território», promovido pelo Núcleo Distrital de Évora da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, no Palácio D. Manuel.

Na sessão, José Roquette começou por destacar o povoado megalítico dos Perdigões, localizado no concelho de Reguengos de Monsaraz, considerando-o um exemplo relevante das primeiras fixações de populações nómadas nesta parte da Europa.

Segundo o empresário, o local é hoje reconhecido pelo seu valor histórico e arqueológico, tendo referido que as universidades europeias convergem anualmente para o povoado dos Perdigões, que consideram «tão importante do ponto de vista de localização» e «do ponto de vista arquitectónico» como Stonehenge.

Perdigões como património a valorizar

José Roquette recordou que o povoado megalítico dos Perdigões surgiu no seu percurso quando adquiriu uma herdade próxima do Esporão. O empresário explicou que, ao sobrevoar a zona de helicóptero, observou marcas circulares no terreno, o que motivou a investigação arqueológica.

«Eu vi que havia ali qualquer coisa de estranho, porque lá de cima eu via uma quantidade de círculos», afirmou, acrescentando que «foi em função disso que se fez a investigação» e que daí resultou a identificação do património hoje conhecido.

O empresário referiu que existem cerca de «10.000 peças devidamente cuidadas e tratadas», defendendo a criação de um museu que permita receber esse espólio e tornar o local num ponto de atração.

Para José Roquette, o objetivo passaria por permitir que os visitantes compreendessem «como é que se vivia ali há 5000 anos», num espaço capaz de valorizar a memória, a investigação e a identidade do território.

Conceito de «devagar» associado à construção duradoura

Na intervenção, José Roquette relacionou também o conceito de «devagar», central na estratégia de Évora 2027, com a cultura do Esporão, afirmando que essa ideia está presente na empresa há mais de duas décadas.

«O Devagar, há mais de 20 anos, que está na cultura do Esporão, como qualquer coisa de muito importante», afirmou.

Para o empresário, este conceito está associado à necessidade de construir com tempo e consistência. «É a base de qualquer construção séria, não se faz nada a correr», defendeu.

José Roquette acrescentou que «qualquer coisa feita a correr é inevitavelmente apagada a prazo», considerando que o «devagar» tem «um sentido de humanidade absolutamente determinante» para a forma como entende o desenvolvimento e a própria condição humana.

Capital Europeia da Cultura não deve ser apenas um conjunto de eventos

José Roquette deixou ainda um alerta sobre o alcance que, na sua perspetiva, deve ser dado a Évora 2027. O empresário defendeu que a Capital Europeia da Cultura não deve limitar-se a uma sucessão de iniciativas culturais.

«Évora, Capital da Cultura em 27, não pode ser, nem deve ser só um conjunto de eventos», afirmou.

Na sua intervenção, José Roquette enquadrou a Capital Europeia da Cultura num contexto mais amplo, ligado à defesa da cultura europeia. «Nós estamos a lutar pela sobrevivência da civilização europeia. Estamos a lutar pela cultura europeia de que fazemos parte», declarou.

O empresário considerou que Évora 2027 deve integrar essa dimensão, afirmando que «tem que ter essa componente inexoravelmente».

Apelo às novas gerações

José Roquette dirigiu ainda uma mensagem aos mais jovens, defendendo que a cultura não deve ser vista como algo imediato ou secundário na vida das pessoas.

«A cultura não é nada de instantâneo ou de que se possa considerar como qualquer coisa mais na vida das pessoas», afirmou, sublinhando que a cultura tem «uma componente intergeracional profundíssima».

O empresário afirmou falar também a partir da sua experiência familiar, referindo-se como «avô de 21 netos» e «bisavô de 13 bisnetos», para defender que as novas gerações devem assumir um papel ativo na defesa da cultura e da componente civilizacional das suas vidas.

José Roquette recordou a queda do Muro de Berlim, em 1989, e da União Soviética, dois anos depois, para afirmar que a sua geração considerou, erradamente, que os problemas estavam resolvidos.

«A minha geração cometeu este erro histórico», afirmou, considerando que os jovens devem hoje empenhar-se «concretamente» e «bater-se pela cultura».

O encontro da SEDES integrou o ciclo «Temas para o Território» e reuniu responsáveis institucionais, especialistas e representantes do território em torno da identidade cultural, da coesão e da valorização territorial.

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