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Menos crianças, mais pobreza e mais crimes: o retrato da infância em Portugal

O INE revela que a proporção de crianças em Portugal caiu para 15,5% da população. Pobreza, habitação e criminalidade continuam a afetar milhares de menores.

Portugal tem hoje menos crianças e uma população mais envelhecida do que há três décadas. Os dados divulgados esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), por ocasião do Dia Mundial da Criança, mostram que a proporção de crianças até aos 17 anos na população residente passou de 25,2% em 1990 para 15,5% em 2024.

Segundo o INE, o número de crianças diminuiu de 2,5 milhões para cerca de 1,67 milhões no mesmo período, representando menos 841 mil crianças em Portugal. A redução está associada à quebra da natalidade e ao envelhecimento demográfico da população.

Natalidade continua abaixo do nível de substituição

Os dados indicam que, em 2025, nasceram 87.764 crianças de mães residentes em Portugal, menos 24,6% do que em 1990. A taxa de fecundidade geral passou de 46,5 para 37,9 nados-vivos por mil mulheres em idade fértil entre 1990 e 2024.

O adiamento da maternidade também se mantém. Em 1990, a idade média das mulheres ao nascimento do primeiro filho era de 24,9 anos. Em 2024, subiu para 30,3 anos.

Saúde e vacinação apresentam níveis elevados de cobertura

Na área da saúde, o INE destaca que 95,7% das crianças com seis anos cumpriram o plano vacinal para o sarampo, papeira e rubéola em 2024. A cobertura da vacina contra a hepatite B atingiu cerca de 99% das crianças com um ano de idade.

Ainda assim, 3,6% das crianças não conseguiram satisfazer necessidades de consulta ou tratamento dentário e 4,5% apresentavam limitações na realização de atividades habituais devido a problemas de saúde prolongados.

Mais de 17% das crianças continuam em risco de pobreza

O relatório revela que a taxa de risco de pobreza entre crianças até aos 17 anos se situou nos 17,6% em 2024, valor superior ao observado para a população em geral. O risco de pobreza atingia 35,1% das famílias monoparentais e 26,7% das famílias com três ou mais crianças.

Além disso, um quinto das crianças vivia em agregados familiares sem capacidade para pagar pelo menos uma semana de férias por ano fora de casa. Cerca de 9,8% não podiam participar regularmente em atividades extracurriculares ou de lazer.

Problemas habitacionais afetam famílias com crianças

Em 2025, 20,8% da população que vivia em famílias com crianças encontrava-se em situação de insuficiência de espaço habitacional. Já 10,2% viviam em condições severas de privação habitacional.

Os valores são significativamente superiores aos registados em agregados sem crianças, segundo o INE.

Educação com mais pré-escolarização, mas menos alunos

No ano letivo 2023/2024 estavam matriculados mais de 1,6 milhões de alunos no ensino não superior, menos 19,5% do que em 1990/1991. Em contrapartida, a taxa bruta de pré-escolarização passou de 50,7% para 100,6%.

O estudo refere ainda que, em 2022, 76,8% dos alunos de 15 anos apresentavam um nível mínimo de proficiência na leitura e 70,2% em matemática, valores inferiores aos registados em 2012.

Criminalidade contra menores atinge máximo desde 2014

Outro dos dados destacados pelo INE refere-se à criminalidade contra menores. Em 2025 foram registados 3.307 crimes contra menores, o número mais elevado desde 2014.

Os crimes mais frequentes foram a violência doméstica contra menores, com 1.122 participações, e o abuso sexual de crianças, adolescentes e menores dependentes ou em situação particularmente vulnerável, com 946 participações. Juntos representaram mais de 62% dos crimes registados contra menores.

O relatório do INE traça assim um retrato da infância em Portugal marcado pela redução do número de crianças, pelo envelhecimento demográfico, pela persistência da pobreza infantil e pelo aumento da criminalidade contra menores, apesar dos progressos registados em áreas como a vacinação e a educação pré-escolar.

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