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No coração das flores: Histórias de quem faz as ruas floridas de Redondo

Nos bastidores das Ruas Floridas de Redondo, há um trabalho contínuo, feito de paciência, dedicação e mãos calejadas. A cada edição, centenas de pessoas mobilizam-se para transformar o espaço público num espetáculo de cor e criatividade.

Entre elas, há rostos com percursos distintos, mas unidos pelo mesmo propósito: dar vida a uma tradição profundamente enraizada no concelho. Cristina Ramires, José João e Elisa são três dessas pessoas.

A memória e a técnica de Cristina

Cristina Ramires é uma das cabeças de rua. O entusiasmo com que fala do seu trabalho revela o tempo e a entrega que dedica à iniciativa. «Gosto muito de trabalhos manuais e daquilo que faço. Trabalho para o município o ano inteiro, e mesmo quando não há ruas floridas, continuo a fazer peças para o Museu», explica.

Na rua que coordena, conta com o apoio direto de quatro pessoas, mas o esforço estende-se para além do espaço público. «Tenho o meu pai que me ajuda nas peças com esferovite, porque eu não sei trabalhar com esse material. E em casa vou cortando, colando e guardando tudo para, mais perto do evento, montar as peças finais.»

A falta de espaço nas oficinas leva muitos a continuar o trabalho em casa. Fins de semana, feriados e serões tornam-se parte da rotina. «As pessoas voluntárias só trabalham depois do horário de trabalho. São muitas horas e muitas peças. Mas quem trabalha por gosto não cansa», afirma.

A ausência de jovens na sua rua não a preocupa, pois compreende que outras zonas tinham mais necessidade de reforços. Ainda assim, valoriza a renovação geracional: «Faz-nos falta mais jovens. Nós vamos descaindo, começam a aparecer as dores nos dedos. A agilidade vai sendo outra. Mas estou convencida que vão aparecer.»

José João e o instinto de criar

José João é um dos nomes mais experientes na organização. Este ano está à frente de duas ruas: o Largo Duque de Bragança e a Rua Eça de Queirós. Com mais de três décadas de dedicação, construiu um percurso marcado pela originalidade. «Nunca copiei temas. Trabalho por instinto. Posso ver uma peça e transformá-la em mil e uma formas. Gosto de improvisar no momento», explica.

O processo criativo começa com a escolha do tema e continua com uma seleção cuidada de materiais e colaboradores. «Eu escolho as pessoas pela sua área. Se é para trabalhar esferovite, pintura ou pasta de papel, vou buscar quem tem essa capacidade. Cada um tem o seu papel definido e só precisa de me mostrar o trabalho final», descreve.

José João mantém uma equipa de confiança, onde reina a disciplina e a organização. «Não preciso de muitas pessoas, preciso das pessoas certas. Tenho uma logística bem formulada. O projeto é todo delineado por mim.»

Apesar de trabalhar sobretudo com adultos entre os 40 e os 60 anos, nota uma evolução positiva na participação dos mais novos. «Fiquei surpreendido pelo que os jovens estão a mostrar. Este ano já temos equipas novas muito boas. Talvez um dia, quando tiver de deixar as ruas, possa deixar-lhes essa responsabilidade.»

Elisa: de Vila Franca de Xira para Redondo

Elisa veio de Vila Franca de Xira. Está a participar pela primeira vez na decoração de uma rua. A ligação começou com um comentário feito a uma amiga de Redondo. «Disse-lhe: porque é que não enfeitavas a tua rua? Ela pensou no assunto e este ano cá estou eu a ajudar.»

A experiência tem sido intensa. «Estou a adorar. Estou a aprender muita coisa, porque na minha terra não se faz nada disto. É maravilhoso», refere. Apesar da distância, considera importante o envolvimento de pessoas de fora. «Os familiares das pessoas que moram aqui e estão fora também podem vir ajudar. Foi o que eu vim fazer.»

Acredita, no entanto, que a tradição deve permanecer enraizada no território. «Isto é muito do Alentejo. Cada zona tem a sua tradição. Esta é mesmo do Alentejo. Não deve sair daqui.»

Mesmo assim, planeia levar parte do espírito das ruas floridas para a sua terra. «Não só uma flor, mas alguns efeitos da rua também vão comigo.»

Uma festa feita de muitas mãos

As Ruas Floridas de Redondo não são apenas um evento cultural. São o reflexo de um esforço coletivo que atravessa gerações, geografias e técnicas artesanais. Em cada flor recortada e pintada, há uma história, uma memória e uma vontade de perpetuar uma identidade. A de Cristina, que colabora há vários anos. A de José João, que guia as suas ruas com rigor e liberdade criativa. E a de Elisa, que encontrou no Alentejo um ritual ao qual agora também pertence.

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