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Políticas europeias para o património cultural – notícias de Poznań

Num contexto em que riscos de globalização excessiva necessitam de ser contrabalançados, pelo sentimento de pertença – local, regional, communitário – o património cultural e o legado imaterial ganham uma importância acrescida. Talvez por isso, o tema pudesse ter surgido mais cedo nesta crónica. Mais vale tarde do que nunca, portanto hoje aproveito para trazer à luz os ecos do projecto ECHOES; a sua recente assembleia em Poznań, na nossa vizinha Polónia, deu o pretexto perfeito.

Cultura e Património na Era Digital

Numa época de tensão geopolítica, de rápidas mudanças tecnológicas e de um crescimento manifestamente desigual, o património cultural da Europa mais que um legado estático do passado, é uma a âncora para um futuro mais justo – tanto aqui nas nossas regiões, como a nível global. A Sociedade considera cada vez mais os museus, os arquivos e os sítios históricos como um recurso fundamental para reforçar a coesão, o desenvolvimento sustentável e, no nosso caso, a unidade europeia e, como tal, uma alternativa para equilibrar a hiperglobalização.

Nós, na Europa, consideramos que o património cultural inclui não só monumentos e coleções, mas também uma riqueza intangível de tradições, de confiança e de sentido de pretença, a uma comunidade, que liga memória – longa no nosso caso – aos recursos digitais da atualidade. Embora a responsabilidade pela política de património continue em grande parte com os Estados-Membros, como não poderia deixar de ser, uma vez que a soberania nacional prevalece sempre, a UE desempenha um papel fundamental de apoio através da coordenação de estratégias, dos programas de financiamento, e do alinhamento de estratégias com o objetivo de salvaguardar o património, ao valorizando o seu papel social e económico, contando que todos se sintam representados.

Nos últimos anos, o sector sofreu uma grande transformação impulsionada pelas tecnologias digitais. Estas estão a reformatar o modo como o património cultural é vivenciado, conduzindo a novas iniciativas, como o “Espaço Europeu de Dados para o Património Cultural” – que tem de funcionar como fonte de oportunidades e nunca como fator de divisão. Por isso mencionamos o projeto ECHOES neste artigo.

Os projectos e redes europeus, incluindo o ECHOS e a Europa Nostra, desempenham um papel crucial na tradução da política em acção. Ao fomentar a colaboração, o envolvimento público e a sensibilização, iniciativas como a próxima residência em Malta, de 13 a 19 de setembro (abaixo mencionada) ilustram como o património cultural além de preservado, é também activamente reinterpretado por de públicos cada vez mais diversos. Uma oportunidade a acompanhar…

Encontro Anual do ECHOES em Poznań

De 16 a 20 de março de 2026, a cidade de Poznań acolheu a segunda conferência anual do projeto ECHOES, cuja missão é criar a “Nuvem Colaborativa Europeia para o Património Cultural” (ECCCH), uma plataforma partilhada concebida para facilitar a colaboração entre profissionais e

investigadores da área do património, permitindo-lhes modernizar os seus fluxos de trabalho, de dados e de processos (https://www.echoes-eccch.eu/).

O encontro de cinco dias reuniu dezenas de parceiros do projeto da UE, investigadores, funcionários públicos e instituições interessadas. Estruturado em torno de sessões de trabalho internas, debates públicos e envolvimento das partes interessadas, o evento destacou tanto os avanços técnicos como o alinhamento político. Certamente que nas próximas edições o património cultural do Alentejo cada vez melhor representado.

O ponto alto do evento foi a conferência pública de 18 de março no Museu Nacional de Poznań, que abriu o projeto a um número mais vasto “stakeholders” e reforçou a importância dos recentes desenvolvimentos como um futuro “bem digital comum” para a Europa. Após as observações iniciais dos representantes da UE e das autoridades locais, os oradores da sessão plenária contextualizaram no evento casos concretos de algum interesse; por exemplo, um investigador da PIAST AI Factory explicou como a inteligência artificial pode auxiliar na catalogação do património. As primeiras sessões focaram-se na governação do projeto, no planeamento estratégico e no desenvolvimento de componentes essenciais, como a arquitetura digital aplicável, a base de conhecimento e o modelo de impacto.

De seguida, os coordenadores de projecto partilharam os primeiros resultados do “survey” Europeu do ECHOES, mostrando que, ao mapear o panorama do património europeu, identificaram tanto lacunas como oportunidades na forma como as instituições partilham dados, o que é de interesse para as entidades locais e regionais de toda a Europa encontrarem oportunidades de ligação; o que na nossa região tem impacto concreto na valorização de património em risco (posso pensar em muitos casos de património religioso, etnográfico e militar, por exemplo). Os painéis de discussão ganharam uma veia prática, com os participantes a partilharem casos de utilização reais; por exemplo arquivos regionais que utilizaram novas ferramentas do ECHOES para etiquetar e ligar coleções, tornando-as pesquisáveis em várias línguas; ou a ligação de um catálogo digital de um museu de arte à “cloud”, garantindo que os seus metadados são preservados e acessíveis a longo prazo. Estas intervenções mostraram que mesmo instituições com orçamento modesto podem tirar partido de serviços avançados de digitalização e análise sem terem de os desenvolver internamente.

A colaboração foi aliás um tema recorrente ao longo da semana em Poznań, particularmente nas sessões que envolveram projetos relacionados, que apresentaram novas ferramentas para a digitalização, IA e integração de dados. As discussões realçaram as sinergias crescentes entre projetos e a ambição partilhada de integrar o património tangível e intangível num ecossistema digital unificado. Ecossistema do qual precisamos de fazer parte como região.

É importante realçar que o evento enfatizou que o ECHOES está alinhado com as prioridades mais amplas da União Europeia. Os organizadores anunciaram uma declaração conjunta que liga a “Nuvem do Património Cultural” ao “Espaço Europeu de Dados para o Património Cultural”. Isto significa que o ECHOES está a funcionar integradamente; os seus serviços na nuvem alimentarão uma plataforma de dados pan-europeia mais ampla para a cultura, a criatividade e a prática artística.

Durante estes dias em Poznań, os participantes trocaram também opiniões sobre políticas e financiamento, inevitavelmente, com destaque para o Europa Criativa. Os participantes enfatizaram a necessidade de metadados robustos e ferramentas multilingues, ecoando os apelos da União para

preservar o património imaterial através da inovação, como seja o crowdsourcing para o arquivo de música tradicional ou a utilização da realidade virtual para disponibilizar online os costumes locais. Cá estamos para garantir que a região e o valor patrimonial do Alentejo não ficam para trás.

Em conclusão, a partir da reunião, pudemos aprender que a colaboração de vários domínios do património cultural, juntamente com a experiência técnica, se gerida através de uma política de inovação adequada, poderia contribuir para a fusão da Nuvem Europeia do Património Cultural com programas mais abrangentes de património cultural, como a Europa Nostra.

A Europa Nostra e a Residência em Malta

Um excelente exemplo do envolvimento europeu no património cultural é a Europa Nostra. Trata-se de uma coligação pan-europeia de ONG do património, apoiada por uma vasta rede de entidades públicas, empresas privadas e particulares, abrangendo mais de 40 países. Fundada em 1963, é hoje reconhecida como a maior e mais representativa voz do património cultural europeu; aliás, onde precisamos de estar mais presentes.

Na mesma linha da modernização digital, a Europa Nostra lançou a Residência Europeia Inclusiva do Património em 2025, como um projeto do programa Europa Criativa, para formar profissionais locais do património. A segunda edição da Residência terá lugar em Malta, de 13 a 19 de setembro de 2026. Cerca de dez participantes de diferentes países da UE serão selecionados para se reunirem em Malta, com o objetivo de trocar boas práticas e debater os principais desafios enfrentados pelas pequenas organizações do património.

Este programa em Malta tem um formato prático de aprendizagem entre pares: combina visitas a locais históricos com workshops sobre sustentabilidade, gestão de voluntários e angariação de fundos. A ideia é fortalecer as pequenas organizações do património através da partilha de boas práticas. O desafio recai agora sobre os municípios e as regiões, para que defendam o seu próprio património e valores culturais.

Um Futuro Partilhado para o Património Europeu

Todos estes esforços podem reflectir uma visão comum: a de um apoio europeu mais forte às bases culturais locais, regionais e nacionais. Mas o património cultural europeu precisa de evoluir, não apenas de perdurar. O evento em Poznań deixou claro que os espaços de dados e as plataformas na nuvem podem tornar a história digitalizada amplamente acessível, enquanto programas como a Residência em Malta garantem que o conhecimento humano se dissemine juntamente com a tecnologia.

Ao ligar a acção local com a política da UE, o panorama do património no continente está a tornar-se mais ligado e resiliente. Projetos como o ECHOES, de que hoje trazemos notícias, estão já a elaborar roteiros para os próximos anos, que merecem atenção para a sua implementação. É importante compreender que o património em si pode ter séculos de idade, mas a forma como a Europa o protege deve acompanhar o futuro; com todas as regiões a bordo!

Escrito com Irene Ghizzoni [https://www.linkedin.com/in/irene-ghizzoni-65225535b/]

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