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Vila Viçosa: Espólio arqueológico encontrado em 1994 volta a contar a história do Convento das Chagas (c/fotos)

Exposição apresenta peças encontradas em 1994 no antigo Convento das Chagas de Cristo e revela o quotidiano das freiras.

Um conjunto de vestígios arqueológicos recolhidos durante as obras de adaptação do antigo Convento das Chagas de Cristo a pousada, em Vila Viçosa, está agora a ser apresentado ao público, mais de três décadas após ter sido descoberto.

A mostra “Voltar ao Sítio”, inaugurada esta quinta-feira na Pousada D. João IV, reúne uma seleção de materiais encontrados durante a campanha arqueológica realizada em 1994, permitindo lançar um novo olhar sobre o quotidiano da comunidade religiosa que habitou o convento ao longo de vários séculos.

Segundo Francisca Almeida, arqueóloga responsável pelo projeto, os materiais agora expostos resultam das escavações realizadas antes da instalação da unidade hoteleira.

“Quando o convento sofreu as obras para se transformar em pousada, foi feito primeiro um projeto arqueológico e arquitetónico para perceber o que poderia existir aqui com valor histórico e arqueológico. Foi nessas escavações que foram encontradas estas cerâmicas”, explicou.

Após a sua recolha, as peças ficaram acondicionadas nas reservas da Fundação da Casa de Bragança, tendo sido agora alvo de trabalhos de conservação, inventariação e estudo.

O espólio apresentado é constituído maioritariamente por fragmentos cerâmicos, mas permite reconstituir vários aspetos da vida quotidiana das freiras que viveram no Convento das Chagas de Cristo.

“Embora haja algumas decorações que indicam essa parte religiosa, o maioritário é mesmo esta parte do quotidiano do dia a dia das freiras”, referiu Francisca Almeida.

Entre os objetos identificados encontram-se tigelas utilizadas nas refeições, recipientes de armazenamento, potes associados à preparação de alimentos e até um penico, testemunhando práticas de higiene da época.

Peças abrangem um período entre os séculos XVI e XX

De acordo com Ana Saraiva, diretora do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança, a mostra representa apenas uma pequena parte de um acervo significativamente mais vasto.

“Estamos perante uma amostra representativa de um vastíssimo acervo que foi recolhido aqui nos anos 90 no Convento das Chagas”, afirmou.

Segundo a responsável, os materiais abrangem um período cronológico que se estende do século XVI ao século XX, permitindo acompanhar a evolução dos hábitos e modos de vida da comunidade religiosa ao longo de várias gerações.

Para Ana Saraiva, a importância deste património reside também na possibilidade de compreender a realidade do convento para além da dimensão espiritual.

“Permite-nos uma leitura da evolução da vida em sociedade, em comunidade, neste caso uma comunidade de freiras, que tinham toda uma vida quotidiana para além daquilo que conhecemos mais como a sua entrega à oração”, salientou.

Trabalho de investigação vai continuar

A apresentação pública das peças constitui apenas a primeira fase de um projeto mais amplo de valorização do espólio arqueológico.

Muitas das peças encontram-se ainda fragmentadas e deverão ser alvo de futuras intervenções de conservação e reconstituição.

“Esta é a etapa número um. Depois teremos todas as outras etapas, desde logo a reconstituição das peças, a sua intervenção por parte de conservadores para lhes dar a consistência necessária e a sua integridade”, explicou Ana Saraiva.

A diretora adiantou ainda que o trabalho poderá prosseguir através de projetos de investigação e da colaboração de especialistas, permitindo aprofundar o conhecimento sobre os materiais recolhidos durante as escavações.

O projeto foi desenvolvido por Francisca Almeida no âmbito de um estágio profissional promovido pela Fundação da Casa de Bragança, após a conclusão do mestrado em Arqueologia.

Para a jovem arqueóloga, a concretização da mostra representa o culminar de vários meses de trabalho sobre um conjunto de materiais que permaneceu guardado durante décadas.

“Houve alturas em que achei que isto era muita coisa, mas agora, quando estávamos a montar e a decidir as peças, pensei: Realmente conseguimos. Está aqui muita coisa”, afirmou.

A mostra “Voltar ao Sítio” encontra-se patente na Pousada D. João IV, em Vila Viçosa.

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